19 October 2009

O amigo com quem nunca almoço

O momento mais libertador da minha vida foi em Londres,(…) estava eu a trabalhar numa loja de vinhos(…). Era um emprego de férias mas eu gostava de trabalhar lá. Sempre gostei de trabalhar rodeado por garrafas, é verdade. Mas o gerente era simpático e os clientes, sendo pessoas que não eram cegamente contra um copinho ou dois, também.
Um dia, às duas da tarde aparece lá o Chico Sande e Castro, que eu já não via há um ano. “Embora aí almoçar”, disse ele. O Chico, sendo um aristocrata, porta-se sempre como se estivesse em casa, em Portugal.
Como na Inglaterra não é costume ir-se almoçar às duas da tarde e eu já tinha gozado, há meia-hora atrás, o meu “lunch break” de meia-hora, fui ter com o gerente da loja e perguntei-lhe se podia saír durante uma hora e meia, para ir almoçar com este grande amigo meu que eu já não via há muito tempo.
O gerente explicou-me que não podia deixar-me sair porque ele estava aflito a escrever um relatório urgente e não havia mais ninguém para atender os clientes. Compreendeu e ficou com pena mas não podia deixar-me sair, sorry.
O Chico disse “deixa lá, pá – eu apareço cá noutro dia”.
Só que ele estava a estudar em Brighton, no Sul da Inglaterra e eu estava em Manchester, no Norte e só por uma feliz coincidência é que estávamos os dois em Londres.
Para mais, estava um dia de sol.
Tirei o avental e disse ao gerente que ele é que tinha de desculpar, porque eu ia mesmo almoçar como o meu amigo. A conversa simpática rapidamente degenerou até o gerente anunciar-me que, caso eu saísse da loja, ele despedir-me-ia.
Aqui já o Chico se sentia mal por ter provocado esta situação e dizia “Ó pá, vamos antes jantar então, eu passo por cá.” E foi aí que ocorreu o momento libertador. E as três palavras mágicas foram “Que se lixe”. Despedi-me eu do gerente, agradecendo-lhe a maneira como sempre me tratou, e fui almoçar com o Chico. Durante os primeiros passos, enquanto o Chico ria-se e repetia “Este gajo é maluco!”, eu senti crescer-me na boca o maior sorriso que alguma vez tinha sorrido.
Percebi que a felicidade também se pode roubar. Eu tinha roubado um almoço com o meu maior amigo.
A grande alegria é descobrirmos que, em larga medida, somos nós os autores das nossas vidas. Podemos ser mentiroso; podemos ser tarados sexuais; podemos ser alcoólicos; podemos fugir dos problemas; podemos ser sempre frívolos; ou tristes.
Podemos ser inconsistentes. Num dia podemos ser pessoas de confiança e, no dia seguinte, não. E se, por acaso, quisermos ser boas pessoas, temos o grande prazer de sermos bons porque fomos nós que decidimos ser assim. É essa a liberdade que antecede todas as outras. Muito antes de haver liberdades oficiais, já os seres humanos podiam ser egoístas ou rancorosos. Antes de haver liberdade de expressão, qualquer pessoa podia dizer o que lhe apetecesse. Mesmo que o matassem depois, a coisa tinha sido dita e tinha sido ele a decidir dizê-la.
As pessoas esperam de nós que sejamos sensatos e saudáveis e bondosos. Mas isso é apenas o que eles querem; é um desejo; é uma opinião.
Mas, por muito sentido que faça, nós não só não somos obrigados a viver como eles querem, como somos livres de fazer o que quisermos.
Se as pessoas são nossas amigas aguentam-nos como nós somos e aceitam que não batemos bem as bolas e que fazemos merda.
A libertação daquele momento em Londres não foi estar-me nas tintas para aquele emprego: Foi ter podido escolher. As consequências do nosso almoço foram uma ninharia comparadas com a alegria que me trouxe.
Quase trinta anos depois, vivemos os dois em Portugal e quantas vezes vamos almoçar? Uma ou duas vezes por ano. E não é só o Chico. Tenho mais cinco grandes amigos, a começar pelo meu irmão, que quase nunca vejo.
A culpa é mais minha do que deles – embora eles também se aproveitem um bocadinho para se baldarem mais um pouco. Há um deles – O Pedro Rolo Duarte – com quem não vou almoçar só com enorme trabalho: mediante dúzias de mails a marcar, desmarcar e remarcar.
A moral da história não é que devíamos passar mais tempo com os amigos – claro que sim. Não, a moral é que os amigos continuam amigos apesar de quase nunca estarem juntos.
Porque os meus amigos aceitam a minha maneira de ser e de me comportar tal como eu aceito as maneiras deles. Não gosto; não compreendo; às vezes fazem-me raiva; às vezes entristecem-me; às vezes chocam-me. Mas que remédio tenho eu senão o azar de me terem calhado aqueles sacanas como amigos?
Foram esses os sacanas que me caíram no goto; é com eles que me divirto. Alguns até são boas pessoas, para que não se pense que só gosto dos sacanas.
Escolhemo-nos uns aos outros e, de um momento para o outro, podemos deixar de ser amigos. Sem essa liberdade; sem essa tristeza a pairar sobre a nossa amizade, a amizade ficaria vazia.
Continuamos a ser amigos mais o mais importante é que continuamos a querer ser amigos, porque é o que nos apetece. Almocemos ou não almocemos. A vontade de irmos almoçar, um dia destes, chega-nos perfeitamente. Não é uma expressão oca. Queremos mesmo ir almoçar um dia destes.
E isso é lindo, porque é livre.


Texto de Miguel Esteves Cardoso in Playboy, Outubro 2009.

2 comments:

Mei said...

:)
:D
Gostei muito...

Chihiro said...

Amei e roubei :)